QUÍRON

Arte e texto por : Jorge Oliva

O Sol ainda não surgira, mas o céu já começara a adquirir aquele tom translúcido de safira que se confundia e espelhava com o mar. Do alto da escarpa ele olhava o eterno quebrar das ondas infatigáveis na praia. O frio da madrugada ainda estava presente, sua pele se arrepiava com a brisa matinal e seus pelos se eriçavam. Pensou em retornar a caverna, mas a noite anterior tinha sido particularmente difícil.

Sentiu os olhos cansados e irritados pela sonolência, mas sabia que se deita-se novamente, não iria dormir. Desanimado, pensou em fazer alguma infusão que trouxesse Hipnos, esse deus caprichoso, ao seu leito. Por fim, decidiu se enrolar na pele do lobo que ele mesmo caçara e curtira. Cuidar de si! Eis o primeiro mandamento que seu mestre, Apolo lhe ensinara com voz grave, quando ainda era criança. Nunca seguira tão sábia lição. Era fácil se esquecer de si quando pensava uma ferida, escutava um desabafo, ou dedilhava a lira para mitigar uma dor…

Dor! Cada fisgada na pata o obrigava a tomar consciência que seu estranho corpo tinha necessidades e elas eram urgentes. Enquanto mancava pela encosta, ia observando por entre as neves do Pélion, as ervas recém despertas da primavera que ele mesmo plantara no ano anterior. Cada qual tinha uma virtude, que na dosagem errada poderia ser narcótica ou fatal.  Enquanto dolorosamente erguia as patas da frente para colher um ramo tímido de cipreste, árvore altiva que não temia o hálito gélido dos ventos observou a Tília, árvore que um dia fora uma ninfa dos oceanos: sua mãe.

Filíria. O que levara uma deusa das águas a se deixar tomar pelos abraços do Tempo? Cronos, o velho, sem a temida foice e na forma de um cavalo, não teve poder contra a potência de Eros, e apaixonado pelo vaivém das ondas, envolveu em seu próprio fluir a jovem evanescente e imortal em suas marolas de eras, anos e minutos.

Nesse refluxo de animais e deuses, segundos e marés, Fantasia e Tempo o geraram: Quíron.

Meio deus, meio cavalo, vivia junto aos centauros do monte Pélion.

Apolo o acolhera, quando a mãe horrorizada o abandonou vagindo e escoiceando em desespero, um potro monstruoso, prole híbrida e desprezada pelos pais. Tal vergonha sua mãe teve ao lhe dar a luz que os deuses, sempre atento, a converteram em tília, árvore bela e melancólica.

Quiron - desenho 2Lembrou-se do dia, quando abraçou o tronco da árvore, e esta com o vento, afastou os ramos de seus cabelos, como se ainda sob aquela forma, sua presença lhe fosse causa de aflição. Seus olhos mais uma vez ficaram irritados, lágrimas ardiam e ele apertou os dedos grossos pelo treino com o arco, nas folhas do cipreste.  Afastou esses tristes pensamentos. A dor constante lhe deixara com o humor sombrio. O desprezo dos pais fora compensado pela dedicação do deus da luz. Em breve sua face brilhante surgiria no horizonte, espantaria as trevas e o frio, e mais um dia de sua vida iria se desenrolar. O mais belo dos deuses fora seu mentor e o ensinara em todas as artes e ciências. Ele, por sua vez, se transformara no mestre dos heróis, os filhos dos deuses. Sua sabedoria era reverenciada pelos imortais, humanos e animais, mas não o salvou quando um de seus discípulos, Héracles, entrou em luta com os centauros.  Ele tentando pacificar a contenda, foi ferido pelo veneno implacável da Hidra, monstro dos pântanos de Lerna, mãe dos vícios. Héracles soltara uma flecha sobre um dos inimigos e o sábio tolo se deixou atingir…

Olhar para o passado e ser cruel consigo não resolveria seu problema. Lucidez no momento presente, sim. Para encontrar a cura de seu mal, ele estudara junto a Asclépios, o próprio deus da medicina e um de seus alunos, os poderes secretos de cada planta, desde as árvores frondosas até as humildes e poderosas ervas dos campos. Com isso, ambos puderam curar legiões de sofredores, porém ele… Recolheu as plantas que faltavam e se dirigiu ao antro que lhe servia de morada para fazer a poção que aliviaria um pouco seu sofrimento.

Sua velha chaga era o agente que libertava a dor, e o deus-animal sabia que essa era a condição que o tornava mais próximo do estado que tanto amava: humano.

Os primeiros raios do sol encontraram o rei centauro dirigindo com voz solene os jovens heróis em suas primeiras lições. Um sorriso brilhava em sua face majestosa, e a compaixão banhava seu olhar. Mesmo um deus, só pode viver o momento presente, e sem dúvida alguma, não era a ferida que o definia. Inclinando imperturbável a pata ferida em direção a terra, ele e a falange de semideuses saldaram o alvorecer de um novo dia que começava.

 

Jorge OlivaJorge Oliva, nasceu em São Paulo e tem formação superior em Artes e pós graduação em Teorias e Técnicas para Cuidados Integrativos pela UNIFESP. É professor de artes cênicas, ator, coreógrafo e dramaturgo, com espetáculo premiado no Festival Internacional de Teatro da Ilha de Creta. Estudioso da mitologia há mais de 30 anos, Atualmente dá orientação mitológica e assistência para peças teatrais, ministra palestras e atua como técnico em oficinas terapêuticas .